A construção de um muro de pedras para conter o avanço do mar na praia da Armação, em Florianópolis, pode agravar a situação no bairro diante de novos episódios de ressaca.

O alerta foi feito pelo diretor do Centro de Ciências Tecnológicas da Terra e do Mar (CTTMar) da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), João Luiz Baptista de Carvalho, ouvido por mim esta semana. Na opinião dele, a colocação de pedras na praia poderá agravar o quadro de erosão marinha. “O problema pode se intensificar nas próximas ocorrências de ressaca”, afirma. “A princípio, a obra protege as casas afetadas em um curtíssimo prazo. A águas irá encontrar a barreira de pedras e continuará erodindo com força a parte inferior deste muro”.

 Outra citação interessante é de que o inverno ainda nem começou o que pode trazer problemas para o que já foi uma das mais belas praias de Floripa. “Neste período as ressacas são mais frequentes e a praia já está muito fragilizada, sem nenhuma faixa de areia”, afirmou.

 

 

Opinião semelhante tem o geólogo Rodrigo Del Omo Sato, da diretoria do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (CREA) e voluntário da Defesa Civil. Ele defende a posição de que o muro não irá solucionar o problema e que apenas a retirada do molhe auxiliaria a amenizar os efeitos da ressaca. O mais grave é que o profissional afirma que pareceres técnicos estariam sendo ignorados pela prefeitura. “Tem que se atacar a causa do problema e isso não está ocorrendo”, disse. “Técnicos da área não estão sendo ouvidos porque envolve a política. Ouve-se apenaa a associação de pescadores”.

 Sato realizou um estudo com imagens da praia da Armação desde 1938. Para ele, o fechamento completo do “molhe”, realizado há menos de seis anos, teria agravado a situação. “Tem que se acreditar muito em coincidência e acaso para não perceber que o molhe alterou a dinâmica costeira. Sem o engordamento da praia tudo vai voltar a erodir. É a mesma coisa de empurrar um carro sem freio ladeira acima. Quando parar para descansar ele volta a descer”, compara. “Assim que chegar uma ressaca para valer aí veremos o que é destruição”.

 

 

Mas afinal de contas, e essa obra de engordamento? Quanto vai custar? Está nos dez milhões liberados emergencialmente?

A resposta é não.

Falei com o secretário de obras de Florianópolis, José Nilton Alexandre, na tarde desta quarta-feira, dia 2. Ele afirmou que o engordamento da praia será realizado logo após as obras emergenciais de construção do muro. O projeto ainda está tendo os valores “atualizados” mas, segundo ele, superaria a casa dos R$ 16 mi. Estes valores estão desatualizados pois são referentes aos cálculos realizados há dois anos”, disse. “Sabemos que o muro é paliativo e estamos trabalhando na recuperação da praia em si. Estamos estudando a batimetria, hidrometria e levantamento de custos para a realização da dragagem de um banco de areia localizado a 200 metros da costa”.

Alexandre revela que o preço da dragagem ainda pode aumentar “consideravelmente” o custo pelo fato de não existir no país uma única draga que consiga realizar o trabaho no mar, em condições como as encontradas na praia da Armação.

Enquanto isso, 58 caminhões realizam três viagens diárias cada um trazendo pedras ao bairro. Imagens deste sábado mostram que o troço tá ficando alto pacas, mas em alguns pontos as ondas ainda passam por cima.

Enquanto isso, a Defesa Civil emitiu um novo alerta para forte ressaca no domingo.

O tamanho das ondas? Três metros.

 

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  1. Ninguém sabe ao certo se isto vai ser uma solução final e definitiva, mas é o único que dá para fazer por enquanto, levando em consideração o nível avançado de deterioro da praia.
    Este enrocamento é um primeiro passo essencial. Engordamento subseqüente por meio de dragagem e retirada do molhe é a próxima fase.

    Porém, o que causa preocupação, é que até agora não ouvi nada conclusivo com relação a intenção de retirar o molhe. Pelo contrário, diz-se por aí que o molhe vai continuar e que há intenção de construir um quebramar submarino na ponta da ilha de Campanhas (basicamente, jogar um monte de pedras no mar)com a intenção de amansar a entrada do mar na praia do Matadeiro, possibilitando por ali a entrada de embarcações para ancoragem no rio Sangradouro.
    Infelizmente, a gente fica só nos rumores, já que não parece haver um canal de informação oficial e concreto com relação às obras, o plano final, a agenda, o custo, o que esse custo envolve, etc.
    Ninguém parece saber nada confiável… se vc souber de alguma coisa, agradeço a sua postagem.
    Por enquanto a praia vai sofrendo… inclusive a do Matadeiro, cujo nível de areia está incrivelmente baixo… o posto de salva-vidas tombou ontem por causa disto, ao ficar a sua fundação exposta.

  2. Só mais uma coisa, com relação à draga.
    Parece haver uma draga disponível, porém a mesma é para rios, e estabilizadores precisam ser construídos para adaptá-la ao serviço na Armação.
    Pelo jeito como as coisas vão, eu diria que não é uma má idéia o governo estadual considerar em adquirir uma draga marítima para pôr ao serviço da nossa orla em desaparecimento.

  3. O geólogo Sato está correto. Pedras na praia aumentam o processo erosivo no local. Engorda artificial de praia é uma das melhores opções quando se dispõe de areia com glanulometria compatível.É preciso avaliar a energia do trem de ondas no local, na maioria das vezes é necessário a construção de obras complementares o que onera ainda mais a solução adotada.Ao escolher uma tecnologia de defesa costeira é importante avaliar o custo-benefício da obra a ser implantada. Por exemplo: Portugal gastou em 2009 com reposição de aterro de praia 36 milhões de euros, e em 2010 pretende gastar 100 milhões de euros. Antes de escolher a solução de engenharia [e preciso avaliar a eficácia da obra e se ela cabe no bolso do cliente.
    Sugiro entrar no YOUTUBE, digitar Bagwall e assistir o video que disponibilizamos para os participantes do I Simpósio de Engenharia de Alagoas. Essa nova tecnologia de sucesso utilizada no Brasil para controle do avanço do mar pode resolver o problema em Florianópoles.

  4. É necessário que se retire imediatamente o molhe entre as praias da Armação e Matadeiro! Desde a contrução do molhe, o mar vem avançando a cada ano, e por diversas vezes já destruiu muros e encolheu terrenos. Não é novidade para quem conhece bem a praia. A diferença é que dessa vez o mar não recuou mais e existe a ameaça de desastre ambiental. Eu gostaria muito de saber quem autorizou e quem construiu o molhe. A quem interessa a permanência do molhe? Pergunte na associação dos pescadores. Onde estão a Floran e a Fatma? Se existem evidências e parecer técnico de que o molhe pode estar prejudicando a praia e a comunidade por que o Estado, soberano, não se faz presente e retira o molhe além de todas as outras medidas a serem adotadas?

  5. Aparentemente, conforme ouvi hoje, a idéia e construção do primeiro molhe deu-se em 1750(!), e foi fomentada pela pesca da baleia nestas praias.
    Nos anos 80 foi refeito pois tinha desaparecido sob a areia, e novamente -com mais determinação- em 1993 (..onde estavam as autoridades ambientais nesta última ocasião é o que me pergunto.. foi feito com autorização ou sem? com autorização sem estudo prévio ou sem?)
    O motivo dado pela intervenções mais recentes é que o vento Leste impossibilita a ancoragem dos barcos de pesca na baia da Armação se não existir o tal do molhe (ou seja, foi por meio da associação de pescadores que o mesmo foi construido).

    Até onde fiquei sabendo hoje, o muro de pedras foi pago pela prefeitura e os R$ 10 (ou são 12?) milhões são a verba federal para o engordamento e redesenho da praia + soluções a longo prazo. Espero que haja um controle independente/federal desta verba, senão, a gente sabe como verba desaparece…

    Diz-se que eventualmente haverá uma reunião e voto popular com relação à remoção do molhe, o que vai dividir a comunidade em dois firmes campos, a favor e contra.
    Levando em consideração a necessidade de ação imediata vs quanto tempo será necessário para realizar um estudo com relação à culpabilidade do molhe, -pelo que muitas pessoas afirmam e vão afirmar que culpar o molhe é pura especulação sem base ou estudo-, apenas espero que um pouco de sentido comum venha a prevalecer com relação a decisão e, se alguém tiver que especular e decidir às cegas, que sejam os peritos e não aqueles que tenham outros interesses além dos ambientais. Em outras palavras: a praia primeiro, a comunidade (os interesses de negócios, seja pesca, turismo, etc) depois. Mesmo porque, sem praia não há comunidade nem negócios.

    • Pois é…. A informação que eu tinha anteriormente sobre os valores era exatamente essa. Mas junto à Defesa Civil Nacional informaram que foram transferidos 12 mi.. e o próprio secretário de Obras afirmou que o engordamento está “fora” desta verba….
      Concordo contigo.. primeiro a praia. Depois o resto.
      Infeluzmente não é o que vem acontecendo, como o geólogo Rodrigo Sato afirmou em entrevista.
      Um grande abraço

  6. Prezado Fabrício Escandiuzzi

    Sou especialista em obras de defesa costeira, tenho acompanhado o drama dos moradores da orla de Florianópolis e gostaria de colocar alguns pontos importantes para o debate do seu Blog.
    O ambiente litorâneo é complexo e extremamente dinânico com variação continua no tempo e no espaço.
    Antes de escolher qual alternativa tecnológica utilizar no controle da erosão costeira é importante observar a eficácia da solução, ou seja, verificar experiencias já utilizadas que deram certo. No Brasil e no mundo temos diversos exemplos que não deram certo, é preciso levar em consideração os seguintes fatores: Durabilidade da obra;Impacto ambiental; Disponibilidade do material; Custo de implantação e Custo de manutenção.
    Em Alagoas, foram construídos dissipadores de energia Bagwall cujo sucesso resultoru em benefícios ambientais nos locais da intervenção.
    Creio que essa nova tecnologia de sucesso usada no Brasil possa ajudar a resolver o problema em SC.
    Caso tenha interesse em conhecer melhor essa tecnologia posso escrever um artigo para o seu Blog.

  7. Caros amigos;

    Agradeço as mensagens e apoio a minha opinião técnica. Vcs não sabem que é difícil manter um posição quando todos tentam apedrejá-lo, principalmente os de opinião contrária como no caso os pescadores que olham a situação como o fim da pesca. Existem soluções simples para resolver alguns dos problemas, no caso da armação, construa-se uma passarela elevada e pronto a questão de passar para a ilha se resolve, para resolver o rio basta dragar e aumentar sua profundidade para que ele possa voltar a ser navegável. Na Barra, pode ser construído um sistema e eclusas para deixar a embarcação entrar no canal do rio sem afetar seu curso. Agora fazer a balança pender para o lado errado por questões políticas e não técnicas é querer deixar a situação como está. abraços a todos.

  8. Acabei de passear pela alameda da memória com um senhor muito simpático e duas amigas dele que se juntaram à conversa; pessoal entre 70 e 80 anos de idade, criado nesta praia.
    Lembram com um certo grau de nostalgia, do pasto na frente da igreja, das dunas com pitangueiras, maracujás e de fugir dos marimbondos antes de chegar ao mar. Do alemão que morava na ilha das Campanhas com seu caminhão Ford para carregar barricas de óleo de baleia, e que fugiu em 1945 deixando sua casa estilo chalé germânico e seu radio amador ao ser suspeito de espionagem e de estar em contato com um suposto submarino alemão.
    Entre muitas outras anedotas, também lembravam de um molhe parcial, metade do atual, sempre existir ali, a partir das Campanhas e não da praia, por onde entrava alguma água para o rio Sangradouro, o qual era bem mais fundo e nem sempre podia ser atravessado com completa segurança.
    Também lembram duma procissão interminável de caminhões levando areia da outra ponta da Armação -mais do lado das dunas próximas ao Morro das Pedras- para ser utilizada pelo que ouvi dizer, na construção do aeroporto.
    De acordo com eles, sempre houve algumas casas na linha de construções que hoje estão desabando.

    Pelo jeito, há muito tempo que existe uma barreira -pelo menos parcial- entre a praia e as Campanhas, ou seja, o fluxo de água entre o mar e o rio era de alguma forma restringido e controlado, mas ocorria.
    Abertura parcial do molhe, quem sabe?

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