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Florianópolis comemorando seus 350 anos essa semana e voltamos a escutar a velha lamúria de que a capital de Santa Catarina está de “costas para o mar”.

Políticos e classes empresariais pregando a criação de marinas e decks para iates, veleiros, lanchas, restaurantes de “alta gastronomia” e essa pataquada toda que não é novidade para ninguém.

O fato é que as pessoas parecem não conhecer Florianópolis. Ou pelo menos, não querem ver a nossa querida Desterro, vai saber… Quem anda pelo centro pelas manhãs, como eu e Luísa, se depara com um cenário que nada parece com a “beleza sem par” cantada em verso e prosa em seu hino.

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A sua sorte, meu único leitor Bob, é que a foto não tem cheiro

O centro da cidade, tão falado nos últimos anos pela recriação de áreas culturais e gastronômicas, mas parece uma lixeira a céu aberto. A praça XV, da nossa tradicional velha figueira, onde em tarde fagueira, vou ler meu jornal cheira a urina e merda. Todos os dias. As ruas próximas à avenida Hercílio Luz repletas de lixos, sujeira, rastro de xixi e fezes humanas. A antiga sede do Procon, ao lado do Museu Victor Meirelles, teve uma das paredes derrubadas e serve de ponto para sei-lá-o-quê.

O fedor é insuportável. Roupas, preservativos, calcinhas e cuecas sujas. Tudo no chão. Na calçada.

Nos arredores da tal área cultural, próximos aos chamados bares alternativos e undergrounds, muita gente vem confundindo grafite com pichação.

O mau cheiro já é impregnado.

Posso estar velho, mas até esse “novo centro” que tanto falaram não me apetece. Quem sentar numa cadeira de plástico na avenida Hercílio Luz pode começar a contar: vai ter quem pede um trocado, um cigarro, um gudang, uma tragada, um gole de sua cerveja, pede para fumar a “bira”, insiste, pede um café, um salgado, insiste, insiste, insiste. Dia desses estava passando com Luísa e precisei deixar a calçada pois dois homens estavam vomitando aquela “Corote” em frente ao Clube Doze. Não era meio dia ainda.

Tudo isso no centro. Com prefeitura e aquela Câmara de Vereadores bem pertinho. Fazer um novo centro da cidade não é só colocar um piso na rua e pintar uma ciclofaixa. Falta um carinho especial.

Nem vou entrar em maiores detalhes sobre a lagoa formosa. Ah, lagoa formosa. Uma avenida das Rendeiras que já foi charmosa, que tinha bons espaços para se frequentar. Hoje, pena com um local ali, outro ali…

Zininho ia chorar litros e litros de desgosto se fosse vivo.

E a imagem que passam de Florianópolis é de um grande centro, com belezas e recursos. Falam todos boquirrotos de uma nova Dubai, uma cidade que “precisa ser planejada” para a turma dos barcos se esbaldar com seus espumantes na temporada em marinas e decks repletos de restaurantes daqueles de chef, ou seja, com pouca comida e muitos números na conta. Não tem coisa mais brega do que isso. Não sei que Corote esse povo toma.

Daí vão me dizer: “Essas pessoas que fazem sujeira nas ruas, vieram de fora”, “Por que você mora no centro?”, “Vai te embora”. Esses mesmos que argumentam e vociferam isso são aqueles que arreganham os 40 dentes da boca quando um empresário – de fora, olhe só – aparece por aqui anunciando empreendimentos milionários. Empreendimentos em dunas, ao lado de mangues, despejando a urina e a merda dos mais abonados em rios e mar. Olha o que acontece no sul da ilha, com a proliferação desenfreada de empreendimentos imobiliários e com o ridículo batismo que surgiu, o “Novo Sul Ilha”. De novo, só a sujeirada que não tinha há 20 anos.

Só para lembrar, até o nome, Florianópolis, é referente a uma pessoa que “não é daqui” e a única ligação que tem com a cidade é um rastro de sangue e morte.

Enfim, virar de costas para o mar é isso: despejar merda nele o tempo inteiro. Deixar a ilha crescer sem ordenamento, sem objetivo a não ser o imobiliário.

Virar de costas para o mar é esquecer o pescador artesanal e suas tradições, esquecer que ele depende justamente deste mar para sustentar a família. É ter uma baía norte ainda toda poluída mesmo com promessas e mais promessas.

Então, quando essas autoridades e deslumbrados abrirem um champanhe e brindar os 350 anos da cidade, vão lamentar delirantemente mais uma vez que ela esteja de costas para o mar.

Não, meus caros, Florianópolis está de costas para si mesma.

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